Em Arouca, as metáforas ganharam vida em mais um dia da existência dramática do Benfica

Sem José Mourinho no banco, o Benfica nem sempre conseguiu resolver os problemas sozinho. O espírito dos encarnados atrasou-se a entrar em campo e o Arouca praticamente começou a ganhar. A equipa da Luz precisou de se empanturrar de avançados até ter um que a ajudasse na reviravolta (2-1)
Com tantos lapsos, imperfeições e disparates, a invencibilidade do Benfica no campeonato é um fenómeno ao qual a comunidade científica não tem dado a devida atenção. É que, entre o conhecimento até aos dias de hoje produzido, escasseiam teorias que vejam como natural a isenção de consequências mais gravosas para tão vasto conjunto de defeitos.
Por vezes, os assuntos decidem-se meramente na diferença entre alguém que se levanta da cama mal o despertador toca e alguém que só acorda para a vida quando o grasnar já vai demorado. Mesmo quando se trata apenas de ligar o interruptor da predisposição, o Benfica consegue entrar em pânico. De tanto se ter habituado a conviver com apreensão, resolveu o dilema nos derradeiros instantes e evitou mais um vacilo (2-1).
Logo aos seis minutos, foi assinalada uma grande penalidade por mão de António Silva. Para o VAR analisar o único ataque do encontro até então, foi precisa uma eternidade. Barbero tinha importunado o central do Benfica na abordagem ao cruzamento feito para o avançado espanhol. Recompensado pelo mérito da ação, ele próprio concretizou. Os encarnados estiveram a perder desde o primeiro momento.
O Benfica é uma equipa de espasmos. Por momentos, o Arouca insistia na sua compulsiva saída baixa, que os encarnados anulavam com prontidão. De seguida, os jogadores de Vasco Seabra pressionavam junto da área contrária sem que as águias encontrassem solução para progredirem. Não era percetível que versão o conjunto da Luz queria assumir.
Potenciais chatices para Arruabarrena eram evitadas pela concentração de defesas arouquenses eficazes a tergiversar remates. O que foi o Benfica fazer a Arouca? É que o propósito não era decifrável. O Benfica assemelhava-se a uma equipa ao abandono, a viver de um plano traçado no início do jogo (insistir em passes nas costas) que não foi capaz de rever perante a falta de resultados.
A ausência de José Mourinho deixou um vazio de aura no banco de suplentes. Só no próprio dia da deslocação a Arouca ficou confirmado que o castigo, devido à expulsão no clássico, não ia ser levantado. Perante o sucedido, os jogadores não demonstraram ser autónomos na resolução de enigmas.
Ao intervalo, o Benfica não tinha rematado à baliza e os sururus causados por cantos despejados na área eram insuficientes. A desinspiração, em vez de ser compensada por empenho defensivo, manifestou-se também na retaguarda. Diogo Monteiro ajustou a mira do cruzamento como quis e encontrou Barbero, que não bisou por pouco.
O delay competitivo da equipa orientada por João Tralhão na 26ª jornada manteve-se. O Arouca só não o capitalizou da mesma forma. Com dois minutos decorridos na segunda parte, Barbero permitiu a defesa a Trubin, mas a recarga de Lee Hyunju, indesculpavelmente, não acabou dentro da baliza.
Porém, o Arouca também replicou os problemas demonstrados anteriormente. Lukebakio fez de Jose Fontán uma folha de papel amarrotada. Arruabarrena negou-lhe o golo, mas sacudiu para canto, a origem das dificuldades do 11º classificado do campeonato e dono da segunda pior defesa. A tenebrosa marcação permitiu o empate a Richard Ríos.
O exagero das variações do centro para a direita satisfez a sede de protagonismo manifestada por Schjelderup. O remate ao lado deixou o aviso. Uma substituição que Vasco Seabra fez com propósitos defensivos, lançando Pablo Gozálbez, ia tendo o efeito oposto. Mais um espanhol a ameaçar Trubin.
Voado que tinham os primeiros minutos da segunda parte, nos quais também se pode lembrar uma tentativa convicta de Pavlidis, o Benfica voltou a adotar o modo desnorteado. Dylan Nandín aburguesou-se em oportunidades, também ele aproveitando as falhas dos centrais.
Parecia desconchavada a forma como os encarnados começaram a sobrecarregar o campo com avançados. Pavlidis, Ivanovic e Anísio Cabral: todos fizeram parte da ofensiva final. Muitas vezes se usa a expressão escorregadela como metáfora, mas foi exatamente o que aconteceu ao Arouca. Arruabarrena caiu ao bater um livre e Leandro Barreiro lançou de imediato o contra-ataque. Ivanovic aguardou pelo cruzamento de Prestianni e concluiu a reviravolta.
Na onda de metáforas que se transformaram em realidade, os ânimos aqueceram. Houve um incêndio na bancada e outro, menos literal, no relvado. Trezza e Dedic pegaram-se e foram expulsos.






